Em livro, começo a ler Énia Lipanga com “Para enxugar as nódoas dos meus olhos”, editado pela gala-gala. Os textos em verso pouco lembram a voz que conhecemos dos saraus culturais. O pranto sugerido no título anuncia outra Énia, virada para dentro, a marcar uma espécie de distanciamento, como se reconhecesse que o texto lido pede um trabalho diferente dos textos que se pretendem compilar em livro. Só três versos para ilustrar o que ando aqui a tentar dizer - “Cava-se o tempo em cada piscar/sinto o espírito da chuva/ E os sopros de casa em invocação” (pag. 63). Quem associaria, à primeira, Énia  a estes versos?

Este “Para crentes lerem escondido” devolve-nos a Énia dos slams ou de outros eventos de palavra-falada.  

O título já impõe uma espécie de estranhamento aos puritanos da língua.  Lido assim - “Para crentes lerem escondido” - fica a parecer um atropelo da gramática, uma gralha que se anuncia logo no título, com o adjectivo “escondido” que parece não concordar com o substantivo “crentes”, um adjectivo que também se podia metamorfosear em advérbio. Talvez fosse mais fácil “para crentes lerem escondidos” ou “para crentes lerem às escondidas”. Mas Énia não cedeu a esta facilidade e ainda bem, se não colocaríamos o ônus maior sobre os “crentes”, sendo que o ônus maior está, pelo menos é o que me parece, sobre o livro, sobre o conteúdo do livro e a palavra-também-substantivo “livro” parece dispensável se a temos presente em objecto, em artefacto, isto é, o próprio livro. Talvez importa também voltar a pensar nos “crentes”. Apesar de guardar em si grande religiosidade, também pode - e acho que até deve - ser lida a partir do seu chão etimológico, “crente enquanto aquele que crê, enquanto aquele que acredita em alguma coisa”, porque, se é verdade que, ao longo do livro, a autora ensaia uma ressignificação do conceito de santa/santidade e religião/religiosidade, não é menos verdade que também questiona as famílias que acreditam que às meninas é reservado um lugar menor. A voz nos textos ora soa como a de um sujeito poético, ora como a de uma narradora, mas sempre a fazer-nos lembrar da forma como olhamos para as mulheres, o seu lugar na hierarquia de carne humana, de voz humana. É a escritora activista, artevista, com a pretensão de ser a voz de outros silêncios, a tentar redimir as desgraças de todos os dias com uma voz que parece nos causar estranheza, a ironia que coloca a graça e a tragédia na mesma parede. Olhemos para este “Mamana sabia, e não fez nenhum”: “Aquele tio que dorme com mamana começou a visitar meu esteira quando ficava escuro. Aproveitava que escuridão deixava a palhota cega, e fugia comigo para em baixo da manta. Aquele tio, não demorou escurecer muitos dias e passou a viver comigo no esteira. Há muito tempo, na semana passada, logo quando chegou aquele tio do serviço, aquilo era sentir dor até dzixa, mas hoje e ontem o meu corpo já tlanyalou. Eu fui dizer mamana quando fomos carregar tihunyi, por que à noite aquele tio vem no meu esteira. Mamana apontou minhas pernas com cor da mandioca, antes de descascarmos, e disse para guardar, porque aquele tio, à noite, viria tomar com elas chá. Afinal mamana sabia, mas não fez nenhum”. (pag.21)

No livro “Sob a capulana do destino e outros escritos”, que agora é semi-finalista do Oceanos, Énia escreve “vivo cercada de histórias que me escolhem antes mesmo que eu as escreva. Resido na garganta trancada da mulher. Sou a voz que morreu sufocada na madrugada fria, esperando uma chave para poder descansar.” E as histórias que lemos lá naquele “Sob a capulana do destino” muitas delas tem o seu início neste “Para crentes lerem escondido”. 

“Com quantos paus se faz uma carreira” parece funcionar como ante-sala de “Lágrimas de Matalane”. No “Pão nosso de cada dia”, que podemos citar porque é um texto curto - “uma mulher eliminada/é igual ao pôr do sol. / cala-se a vida, termina o dia./Alguns contemplam, outros sequer se dão conta” (pág. 32) -  está muito do que encontramos no “Lágrimas do meu mar de rosas”. Só para citar dois exemplos. 

Este “Para crentes lerem escondido” cumpre esta missão de apontar as pistas do que hoje podemos entender  como projecto literário de Énia Lipanga, com os defeitos próprios do primeiro livro - como a dispersão da forma e do conteúdo. Mas também por isso devemos celebrá-lo como um gesto de coragem.

Com “Para crentes lerem escondido”, Énia Lipanga faz uma espécie de pazes com um grupo de leitores que começou a construir com textos como “com quantos paus se faz uma carreira” e “apetece-me dar” e “sou rodada”. Os três textos estão presentes no livro, lado a lado com tantos outros como este “prefiro acumular paus, que papas na língua” ou deste ultimato “E então exijo/que venhas rijo/ao meu esconderijo/”  ou ainda de muitos outros em que a autora retira o véu sobre o erotismo e experimenta uma escrita a resvalar para o pornográfico, a voz do início. 

Por Elton Pila