Conheci Óscar Fanheiro nos corredores da Escola Superior de Jornalismo. Mas demorei a conhecer o poeta. Pode ter contribuido o jeito meio fechado, a beirar ao esquisito na perspectiva do que se conhece pouco ou de quem se anuncia pouco, um estado de alma por si so esquisito num universo em que todos se tentam colocar em bico dos pés.  E então fomos nos reencontrando nos eventos que a agenda de todos os dias ainda nos permite participar. O último foi na Fundação, na sua vez do “a terça é de vez”. Penso ter sido depois desse encontro que me chegou a mensagem-convite para apresentar-lhe este “Marasmo”. 


O livro se apresenta como um “esforço de reposição de afectos e memórias; um retrato de lonjuras cujos sentidos habitam o corpo e o espírito, enquanto o sonho, a ânsia e o desejo imiscuem-se ao vazio dessa escuridão que chamamos tempo”.


O título - “Marasmo” - e todas as suas aproximações nos empurram para o universo do silêncio, da estagnação e talvez de uma voz e um corpo vencido pela poeira dos escombros. Todos estados de voz e estados de alma a impregnar os quatro cadernos que fazem este livro - “Antropofagia do silêncio”, “Marasmo”, “Sombra Pagã” e “Coágulo”,  cada um podia ser um livro em nome próprio. 


Quem leu “Incêndios à margem do sono”, o livro com que Fanheiro venceu o Prémio Literário Fernando Leite Couto, percebe-lhe o grande trabalho da palavra como um oleiro a erguer da lama, depois da grande chuva, um monumento para as próprias feridas. A poesia em prosa que se anunciava naquele “Incêndios…”, sobretudo no caderno “Exercicios de ausência”, encontra aqui o grande palco de expressão.  Neste “Marasmo”, o poeta volta aos mesmos temas a partir do luto como a ferida que nunca quer sarar e lembra daqueles versos que Luís Carlos Patraquim atribui a José Craveirinha, quase dez anos depois da morte da grande musa: “Dizem que não estou de luto/estar de luto é usar preto por fora?/ Ou é vestir luto por dentro?/ É para ostentar X tempo na rua/ ou para me indumentar sempre no íntimo?/quem disse que não estou de luto?”. Se a morte é um estado permanente, o luto é a mancha irrasurável. 

Óscar Fanheiro tem na sua poesia também a voz dos outros, invocados nos seus nomes ou nas variações de versos que conhecemos do grande quintal da poesia moçambicana. Mas percebemos também o trabalho da palavra e de linguagem e de universo que nos lembra Eduardo White, Luís Carlos Patraquim ou mesmo Armando Artur. Mas também escritores que lhe são contemporâneos como Eduardo Quive, Álvaro Taruma, Japone Arijuane e M.P Bonde, este último com quem Fanheiro partilha esta obsessão pelo tédio (ou a maldição do tédio).  Mas, se em Bonde, como ele mesmo disse numa entrevista e os livros estão aí para quem os quiser ler, o tédio chega pela subversão das coisas; em Fanheiro, o tédio parece a paisagem primeira. Mesmo  quando soa hermético, o hermetismo é da  circunstância da paisagem primeira, a paisagem íntima, a paisagem interior. “Escrever poesia tem lá os seus mistérios”, já havia confessado ao jornalista David Bamo, naquela entrevista logo depois de ter sido anunciado como um dos vencedores do Prémio da FFLC. 

Óscar Fanheiro nos obriga, como o próprio exercício da poesia exige, a suspender o significado primeiro das palavras que temos como garantido, a poesia é aqui elevada à grande arte, tornando-se - para usar palavras de Zetho Cunha Gonçalves - tão fulgurante de vida, de surpresa, de alta magia e encantamento, quanto só a primeira noite  e a primeira manhã do mundo ousaram. Já perdemos as contas das noites e das manhãs que vivemos.

“Eis a insônia da palavra/rugindo no peito da noite, a nuvem descrevendo o cálido gume do vento/(n)esta impossível réstia de sol”. É Óscar e a sua grande descrição de angústias, a sombra se anuncia no chão de todas as coisas.

Por Elton Pila