No dia 14 de Outubro de 2000 uma viatura atropelou mortalmente Sebastião Alba, em Braga, aos 60 anos. O condutor foge. O corpo permanece por identificar durante três dias. Eu tinha apenas seis e vivíamos, em Maputo, o impacto das cheias que, tinham durado cinco semanas e resultado numa grande destruição. Ainda é viva a memória do acolhimento, a convivência em grupo e a solidariedade. Aguardávamos por uma espécie de luz. Lembro-me das noites nas salas de aulas da Escola Secundária Força do Povo, do rosto aflito da minha mãe. Logo a seguir o trabalho de recomeçar: um novo bairro, a reconstrução, o ingresso pela primeira vez à escola.

Começo por este ponto porque os recomeços são difíceis para o ser humano e, Sebastião Alba foi um homem de recomeços constantes. Isso reflecte-se na sua produção literária. E, parece-me: nunca desistiu, deu sempre a cara às dores. Partilharei a minha impressão do Alba a partir da sua poesia, do que ficou registado e do que também colhi quando passei trinta dias na residência literária, em Portugal, o que me deu as ferramentas e informações necessária para depois escrever sobre si.

Ouvi pela primeira vez o nome do Alba entre amigos, no Movimento Literário Kuphaluxa. Anos mais tarde encontrava os primeiros poemas, e mais tarde ainda o livro Ventos da Minha Alma, numa livraria que ficava na esquina entre Ahmed Sekou Touré e Amílcar Cabral. Tenho a impressão de que fechou, como muitas outras. A partir dessa época quis compreender quem era o dono daquela voz inquieta, incómoda, prudente, calculista e frontal na escrita. Procurei por outros livros, nada. Tudo que encontrava nas bibliotecas parecia bem-talhado. Estava fascinado, e ao longo dessa procura se juntou o espanto, as interrogações sobre um homem para quem nada era superior à escrita, nem à política. A poesia era a sua política, o seu planeta, o seu Deus.

Este homem era Dinis Carneiro Gonçalves, aliás, Sebastião Alba, nascido em Braga, numa arcatura temporal que vai de 1940 a 2000. Foi um escritor naturalizado moçambicano. Aos 21 anos, depois de incorporado no Contingente Geral de Boane, havia desertado no segundo dia.

 

Reconheço que é complexo falar de Alba, um homem que foi para frente e para trás, mas que, a sua poesia foi, sempre, um farol aceso que o guiou até o último instante. Para falar de Sebastião Alba posiciono-me em três janelas, nomeadamente: JANELA 1: A Poesia como planeta & O labor da escrita; JANELA 2: O amor e a dor de amar; JANELA 3: A Solidão como ritual de vida.

 

JANELA 1: A POESIA COMO PLANETA & O LABOR DA ESCRITA

Se quisermos falar de um poeta de corpo inteiro comecemos por Alba, um homem que usou das suas próprias mãos para construir um universo em que acreditou até a morte. Para si a poesia não era um mundo provisório, em que chegava e de seguida ausentava-se. Sebastião Alba estava absolutamente entregue a todos os seus labirintos e complexidades, aos lugares mais profundos e densos. Vestiu-se de macacão e avançou com uma precisão absoluta, os pés assentes no chão, seguro de que fazia o que era necessário fazer. Arriscou-se: diluiu a vida e a literatura, tornando-se impossível de notar a linha que separava uma coisa da outra, mistura orgânica. Assumiu de peito aberto que escrever é arriscar, entregar-se a cada palavra para que tudo que é dito seja a nossa verdade, a honestidade, a limpidez. Para que tudo que é dito seja o coração a pulsar, sem artimanhas, sem esquemas, sem corta-matos. O poeta não apenas escreveu, mas viveu por completo o que escrevia, os seus textos eram os poros de sua própria pele a respirarem, o bafo da sua boca, o hálito. Fazia-o com uma lealdade particular, distinta, profunda, transgredindo as fronteiras entre o que era viver o dia-a-dia e o que era ser um poeta. Numa entrevista conduzida por Vergílio Alberto Vieira, em 1996 afirma:

“Nenhuma parte de mim foi traída (penso). Vivo, por assim dizer, no que escrevo, no terreno, como tu sabes nestes últimos dez anos, melhor do que ninguém”.

Alba reconhece que o edifício em que vivia era feito, bloco a bloco, palmo a palmo, por palavras, fazia as movimentações de terra com as palmas das suas próprias mão. Erguia ele mesmo os andaimes. Qualquer incidente, seria sobre o seu corpo.

Acho que Mia Couto soube muito bem descrevê-lo nesse sentido, num texto que ficou registado na revista das CORRENTES DE ESCRITA, em 2002:

Alba não era apenas um poeta. Ele era a poesia. (…) Sebastião Alba foi possuído pela palavra. Consumido por ela.

Para viver, os seus pulmões precisavam, primeiro, de respirar poesia, como que a obedecer a máxima de Nietzsche: escreve com sangue e verás que o sangue é espírito.  Todas as outras necessidades de vida gravitavam sobre a poesia em Alba, ou eram transformadas nela, para que coubessem em suas mãos, consolidando como podem compreender a minha obstinada ideia de construção do planeta, como quem aceita o que José Craveirinha diz para descrevê-lo: Grandioso deus humilde da palavra.  Assume a ideia de um ser com força e poder suficiente de um construtor, o que dá vida, o que com o barro que lhe é concedido constrói e molda os seres, as coisas, as paisagens, injecta a alma, mas nunca, nunca de si para si, ou para o leitor se assumiu como tal, é aí que a expressão “humilde”, parece fazer todo sentido e o escrever enquanto labor se vislumbra, não apenas nos poemas mais maturados, mas ainda na sua primeira publicação Poesias, publicada em Quelimane, em 1965, paga inteiramente por um jornalista amigo do pai. Como se era de esperar, mais tarde tentou destruí-lo. Sempre que encontrava um exemplar, na casa de amigos ou livrarias, destruí-o. Mas foi uma missão inglória. Ainda hoje podemos encontrar esse caderno.

a grade: «Neva»/ Não adianta que um odor se espraie/ e me envolva/ e eu sue…/ «Neva»/ Nem que o degelo, a esta esperança, ague/ o silêncio mortal de pedra e treva.

 

Mãe: já vou só. Estou despido/ Mas nem Deus o há-de saber/ O que a ele não tem cedido/ apega-se-lhe ao morrer…/ E eu ando, ando enquanto dura/ o vigor dos meus pulsos:/ tua infundida, líquida ternura/ a bater-me nos pulsos!

O poeta Sebastião Alba foi sempre em contra-mão ao homem torturado que o habitava. Era obcecado pelo rigor de polir a palavra, pelo trabalho incansável de procura das peças certas, como um médico à procura da veia ideal para inserir a agulha. Ou algo que lembra a Geometria Descritiva, uma disciplina da matemática que estuda métodos para representar objectos tridimensionais em um plano bidimensional, utilizando projecções. Ou seja, a partir de dados numéricos, diferentes figuras são lançadas e bastará apenas um erro, apenas um, para que nada do que se pretende apareça no final. Sebastião Alba parece ter um conhecimento apurado disso e aplica-o à poesia, procurando, sempre, que todos dados ali, no poema, sejam os dados correctos. E, sabe-se, escrever, rescrever, cortar, aborrecer-se com o resultado do próprio trabalho não é uma questão de inspiração breve, é labor. Ele mesmo reconhece:

Escrevo com terrível dificuldade, reescrevo, colo, interpolo, publico um poema como quem espelha. Armo a oficina em qualquer parte, sem tabuleta que a indique. Ninguém sabe, mas ali sua-se.

Pelas edições 70 havia publicado A Noite Dividida e Ritmo do Presságio. A edição da Assírio & Alvim reúne os dois, mais o inédito Limite Diáfano. Nisso, vários dos poemas são reescritos e outros excluídos. Um bom exemplo disso é que dos 80 poemas inicias de Ritmo do Presságio permanecessem 51.

Não se tratava de um fascínio superficial de um alpinista que acredita na inspiração, mas de um homem que sabia que um poema não aguarda por milagres, ele deve ser escrito, com ou sem luz. Escrever é um ofício. Lapidar até achar o brilho necessário. Os três poemas que se seguem uma uma prova absoluta desse facto:

NINGUÉM MEU AMOR: Ninguém meu amor/ ninguém como nós conhece o sol/ Podem utilizá-lo/ nos espelhos/ apagar com ele/ os barcos de papel dos nossos lagos/ podem obrigá-lo a parar/ à entrada das casas mais baixas/ podem ainda fazer/ com que a noite gravite/ hoje do mesmo lado/ Mas ninguém meu amor/ ninguém como nós conhece o sol/ Até que o sol degole/ o horizonte em que um a um/ nos deitam/ vendando-nos os olhos.

 

FIM DO POEMA: Para quem nem tudo vos seja sonegado,/ cultivai a surdina./ Eu fico em surdina./ Em surdina aparo/ os utensílios,/ em surdina me preparo/ ara morrer./ Amo, chut!, em surdina;/ a minha vida,/ nesga entre dois ponteiros, fecha-se/ em surdina.

 

TODAS AS NOITES ME DESPEÇO: Todas as noites me despeço/ de mim. O dorso afunda-se./ O bulício, os relógios/ Prosseguem por fora,/ Nenhum antegosto/ ou prelúdio do fim./ Minha energia/ Aflui, reúne-me? Na órbita/ do sono, some-se e resplandece/ a máscara mortuária.

 

JANELA 2: O AMOR E A DOR DE AMAR

Se não tivesse morrido atropelado, Sebastião Alba teria morrido de amor. Um amor que era tufão. O amor pelos amigos, pelos irmãos, pelos pais, pela mulher, pelas filhas. Sem fingimentos. Foi profundo ao vivê-lo. Atirava-se por completo, confiando que este o podia salvar. A obsessão pela música, pela filosofia… O desligamento de qualquer um destes era capaz de criar uma grande cavidade. Em Ventos da Minha Alma numa espécie de carta dirigida a Neide, uma das filhas, declara-o descaradamente:

Ando em média, 20Km por dia, estou queimado pelo sol e bebo água das fontes. Sinto-me bem e amo-vos muito e sempre.

Noutra carta, desta vez para Sónia, escreve:

Nunca, meu amor, com o canivete que trago cortarei os pulsos. Se não me querem assim como sou, que vão para o inferno. Ou para o céu.

Em páginas consideráveis de Ventos da Minha Alma está evidente: não estamos apenas diante de um poeta, mas também de um homem, um ser humano cujos sentimentos não são uma peça a esconder em câmaras acorazadas, mas que se evidenciam acima de tudo, como flores que brotam sem temor. Esse registo está em toda sua publicação. O pulsar do corpo em simultâneo com o que escreve. Em um bilhete a Vergílio Vieira confessa: fui longe de mais dentro de mim. Reconhecendo como a profundidade com que vivia a vida ao mesmo tempo podia estar a roer os seus próprios calcanhares. Conheceu Felisbela do Livramento Silva em 1966, com quem casa três anos depois. As filhas – Sónia e Neide – são frutos desse casamento. Contrariamente a uma imagem de um homem de coração difícil, Alba mostrou-se sempre, aos seus, cheio de afectos:

CÂNTICO VERMELHO: Amo-te Felisbela/ com a voz silenciada do meu sangue irmão/ Da mais funda gruta de África/ nosso hino rebenta florindo/ os velhos jacarandás do teu país/ Ordeiro, calo-me/ Mas é nos teus olhos que enraízo/ os meus versos salgados/ neles afogo para sempre!/ o orgulho que me ensinam/ e de que só me defende/ tua ingénua mão espancada de séculos/ Amo-te Feliz/ com o ímpeto desses rios/ que meus avós sujaram/ Amo-te Feliz/ na/ cândida melodia/ das marimbas do teu povo/ Amo-te Feliz/ no ritmo da mensagem cega, pura/ das canções de tuas avós violadas/ Amo-te Feliz/ com um amor marejado de lágrimas/ as mesmas, querida,/ que humedeciam nos mares antigos/ o brumoso convés dos seus barcos negreiros/ Mas só to direi simplesmente/ quando à quieta luz dos dias que hão-de vir/ o meu grito de guerra e de poeta/ se quebrar na tua boca enfim livre/ nos beijos despidos/ da vergonha que me cobre.

 

TRABALHO DE CASA/ UM COMBOIO (AGUARELA): No comboio da vossa infância/ a mãe reparte o lanche/ e fatias de pão queijo nada/ e leite fresco Com o pincel/ casar esta brancura ao seu sorriso/ O pai sonha convosco/ no umbral do crepúsculo em que se esfuma.

Na noite de 20 de Janeiro de 1974, morre, vítima de acidente de viação, seu irmão António Carneiro Gonçalves, próximo de Vilanculos, a caminho de Maputo (Lourenço Marques), de onde seguiria para Lisboa, para chefiar a redação do Jornal Expresso. Era o segundo na ordem, era “o irmão mais irmão” do Alba, como escreve Cheina, o próprio poeta dizia que era uma “respiração irmã”, seu principal companheiro. Cheina acrescenta, no seu livro Sebastião Alba Visto Por Mim:

Teria sido esta, uma das causas mais influentes para toda conduta daí para frente.

Alba gostava tanto do António que tudo pareceu evaporar. Amava-o que, grande parte do si parece ter ido agarrado aos ombros do Anton. Eram as incisões causados pelo gesto de saber amar. A partir desse momento, o poeta escreve cada vez mais com dor, com sangue. Os acontecimentos em sua vida eram golpes, em sequência. O seu núcleo central esfumava-se. O vício do álcool agrava-se. Em 1993, o divórcio e visitas esporádicas às filhas. Morre-lhe a mãe.

ESCREVO PORQUE ME DÓI: Escrevo porque me dói/ Como duna casa pobre/ um rádio a golfa alto/ E em uma noite rural/ o sexo se expande.

COM A MORTE DESFAZEMO-NOS: Com a morte desfazemo-nos/ dos hábitos mais caros/ da máquina de escrever/ do piano vertical/ dos nossos olhos dia a dia concordantes/ e uniformes à sua luz com fonte/ Há ainda os inimitáveis/ os que depois entornam o recorte/ ao longo da nossa efígie/ Nesses retornaremos/ No chão crepuscular da rua utilizada/ Nossas passadas coincidirão de novo/ Mas morrer é deixar as palavras/ o amor imparável/ que nenhum joelho corrige.

 

Movo-me nos bastidores da poesia,/ e coro se de leve a escuto./ Mas o pão de cada dia/ à noite está consumido,/ e a alvorada seguinte/ banha as suas escórias./ Palco só o da minha morte,/ se no leito!,/ com seu asseio sem derrame…/ O lado para que durmo/ é um limite diáfano:/ aí versos espigam./ Isso me basta. Acordo/ antes que a seara amadureça/ e na extensão pairem,/ de Van Gogh, os corvos.

 

JANELA 3: A SOLIDÃO COMO RITUAL DE VIDA

Depois de tudo, apenas a solidão era o lugar seguro para viver o resto dos seus dias. O lugar protegido contra tudo, e todos. Ao mesmo tempo que a sua poesia transcendia, ele podia passar despercebido, desprezado, enxovalhado nos bares, nos lugares públicos por causa da sua aparência. Em Ventos da Minha Alma, de Alba, lê-se:

“Cada vez quero mais a solidão física; mesmo com este vento, agasalha-me em qualquer parque onde não se vê mais ninguém…”

Gonçalo Tavares escreveu: As grandes qualidades do homem vêem-se quando está sozinho. Mas também os grandes perigos. O isolamento, no entanto, é essencial. Rilke diz que: Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante horas, é a isso que é preciso chegar. Estar só, como a criança está só.

Sebastião Alba escolheu a solidão como um ritual, quase que a observar a frase de Gonçalo Tavares, para descobrir de facto as suas qualidades mais profundas, ou a ensaiar uma eterna fuga. Ou que um poeta não se agarra, ou a reservar tempo para tocar os clássicos, apurar a vocação pela música, reter melodias e interpretá-las na gaita que levava sempre consigo. Mas, também para encontrar os grandes perigos dentro de si e conviver com eles, porque nunca pensou em cortar os seus próprios pulsos.

Alba reconhecia a sua mortalidade, era desinteressado em relação a posteridade. Um poeta que decidiu caminhar em terrenos difíceis para não trair os seus princípios. Autor de poemas que não vestem fardas, como escreveu Luís Carlos Patraquim, puros, nascidos da solidão, do silêncio, da quietude e do rumor das ruas, dos bares, do pulsar do seu sangue. Um poeta que não precisava parecer, bastava apenas ser, límpido. Reconhecia a sua finitude e, parece que sabia que mais tarde ou mais cedo os seus dias estavam a chegar ao fim, e para que isso não criasse impacto inesperado em si, iniciou o ensaio da extinção através da solidão, ampliando a frase de Louis-Ferdinand Céline ao dizer que: Estar sozinho é treinarmo-nos para a morte.

Chegado aqui, quero reconhecer que para a dimensão de um poeta como este não teríamos todo o tempo e espaço do mundo. Acredito que a poesia de Alba é, sobretudo pólen. Nenhum polén no mundo se move por si, nós precisamos de nos transformar em agentes polinizadores para que a sua poesia não morra atropelada à noite no meio da estrada.

 

21 de Novembro, 2025

Mélio Tinga

 

(Texto apresentado por ocasião d’O Escritor do Mês, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo)