Mais de três décadas após sua publicação original, Terra Sonâmbula, obra-prima do escritor moçambicano Mia Couto, volta a encantar o mundo. Na última quarta-feira, 2 de julho de 2025, o romance foi distinguido em França com o Prémio Laure-Bataillon, galardão que reconhece o melhor romance estrangeiro traduzido para a língua francesa.

A distinção veio após a reedição do livro em 2024 pela editora francesa Metaillé, numa tradução de Elisabete Monteiro Rodrigues. Embora Terra Sonâmbula já tivesse sido publicado em França pela Albin Michel em 1994, foi esta nova edição que levou o romance de Mia Couto novamente ao centro das atenções literárias europeias. O Prémio Laure-Bataillon, criado em 1986 pelas cidades de Nantes e Saint-Nazaire, destaca não só o autor como também o tradutor da obra, celebrando o trabalho literário conjunto que atravessa línguas e culturas.

 

Publicado originalmente em 1992, Terra Sonâmbula é considerado um dos romances mais importantes da literatura africana contemporânea. A narrativa acompanha Muidinga, um jovem refugiado da guerra civil moçambicana, e o velho Tuahir, que encontram abrigo num machimbombo queimado à beira de uma estrada. Lá, descobrem os cadernos de Kindzu, um jovem que escreve sobre os horrores da guerra e o desejo de um futuro melhor. Por meio de uma linguagem rica em lirismo e realismo mágico, Mia Couto transforma a devastação em poesia, tecendo uma história onde memória, sonho e resistência se entrelaçam.

Além do reconhecimento em França, 2025 tem sido um ano marcante para o autor moçambicano. Mia Couto foi o primeiro autor de língua portuguesa a receber o Prémio PEN/Nabokov, atribuído pela PEN America, pelo conjunto de sua obra literária, que inclui não apenas Terra Sonâmbula, mas também títulos emblemáticos como O Último Voo do Flamingo e a trilogia As Areias do Imperador. O júri destacou a sua capacidade singular de fundir tradição oral africana com um estilo literário inventivo e profundamente humano.

Este renascimento de Terra Sonâmbula não se limita ao papel: a obra ganhará uma nova vida no cinema. A realizadora Teresa Prata estreia a adaptação cinematográfica do romance no Festival Internacional de Cinema de Montreal, em agosto de 2025. O filme, rodado em Moçambique com um elenco maioritariamente local, procura traduzir para o ecrã a beleza melancólica e a densidade simbólica do livro.

Em Moçambique, a Fundação Fernando Leite Couto — que leva o nome do pai do autor — lançou recentemente uma edição de bolso da obra, com o objetivo de torná-la mais acessível ao público jovem. A iniciativa reflete o compromisso de manter vivo o legado literário nacional e de aproximar as novas gerações de uma história que, embora nascida da dor da guerra, fala sobretudo de esperança, resiliência e futuro.

A consagração internacional de Terra Sonâmbula reforça a centralidade de Mia Couto no panorama literário mundial. Com a sua escrita sensível, enraizada nas tradições moçambicanas e voltada para o universal, o autor prova que grandes histórias não envelhecem — apenas encontram novos caminhos para tocar os leitores.