Por S.G
Chegue às cinco da manhã. Não, melhor às quatro. Na verdade, se quiser ser atendido ainda este mês, recomenda-se que monte uma tenda na véspera e celebre o seu aniversário no corredor da triagem. A fila nos centros de saúde de Moçambique não é apenas uma fila; é uma instituição cultural, um rito de passagem, uma experiência espiritual em que o doente é paciente, aprende a humildade e a delicada arte de dormir em pé.
Depois de horas de espera heroica, durante as quais terá tempo de fazer novos amigos, contar a história da sua vida e desenvolver uma segunda doença por exposição prolongada ao sol, chegará, finalmente, à tão ansiada janela da farmácia. O funcionário, com a serenidade de quem já ouviu este diálogo dez mil vezes, consultará o sistema com ar solene, franzirá o sobrolho com profissionalismo e entoará o refrão nacional:
— Esse medicamento não temos. Pode tentar na farmácia privada.
Naturalmente. A farmácia privada, que fica a quarenta minutos a pé e cobra um preço equivalente ao salário mensal de uma família de seis pessoas, estará bem abastecida. O mercado, afinal, funciona muito bem. É o serviço público que parece ter adoptado como lema a frase:
“Servir o povo, quando tivermos condições.”
Moçambique, este país abençoado pelo sol, pela terra e por uma criatividade incomparável na arte de resolver problemas sem recursos, tem demonstrado ao mundo que é perfeitamente possível gerir um sistema de saúde sem aquele pequeno detalhe chamado medicamentos. Para quê tratar uma doença quando se pode simplesmente rezar, esperar e torcer? O resultado, garante-se, é igualmente incerto.
O povo moçambicano, dotado de uma resiliência que ao mesmo tempo inspira e envergonha quem devia fazer algo a respeito, desenvolveu ao longo dos anos um conjunto notável de alternativas terapêuticas. A mais popular delas é, sem sombra de dúvida, o chá de erva-cidreira — planta de virtudes aparentemente infinitas segundo a medicina popular local, indicada para febre, dor de cabeça, malária, hipertensão, diabetes, depressão existencial e falta de esperança no sistema de saúde. Tem a vantagem de crescer em quase todo o quintal e não requerer prescrição médica, receita especial, nem visita ao hospital.
Em segundo lugar vem a oração de intercessão médica, método dotado de uma taxa de sucesso que os especialistas classificam como estatisticamente equivalente à ausência de tratamento, mas com a vantagem adicional de ser gratuito, de não exigir fila e de proporcionar um conforto psicológico que, em certas circunstâncias, é o único tipo de conforto disponível. Em terceiro lugar, e com crescente popularidade nos bairros periféricos, surge a medicação emprestada do vizinho, prática em que o paciente pede os comprimidos que sobraram de uma doença diferente, com uma dosagem diferente, para um organismo diferente. O resultado é imprevisível, mas pelo menos demonstra que a solidariedade comunitária em Moçambique está em excelente estado — muito melhor do que o sistema de saúde.
Ao longo dos anos, as autoridades sanitárias produziram um acervo verdadeiramente notável de declarações públicas. Há uma que circula praticamente inalterada desde tempos imemoriais: “A situação está a ser monitorada e serão tomadas as devidas providências.” Outra favorita é: “Estamos a trabalhar com os nossos parceiros internacionais para garantir o abastecimento” — emitida invariavelmente sempre que os parceiros internacionais estão na sala. Mas a joia da coroa pertence àquela que afirma, com rosto sério e tom de urgência, que “a ruptura é pontual e temporária” — declaração emitida há pelo menos quinze anos consecutivos sobre a mesma ruptura.
Deve reconhecer-se que estas declarações têm uma consistência admirável. Em décadas de comunicação pública, as mensagens mantiveram-se notavelmente estáveis, tal como, lamentavelmente, o problema que pretendem resolver.
Há ainda um fenómeno que os economistas classificam como distorção de mercado e que os moçambicanos comuns classificam como uma vergonha enorme: os mesmos medicamentos em falta nas farmácias públicas aparecem, de forma quase mágica, nas farmácias privadas adjacentes, frequentemente a preços acessíveis apenas a quem tem saúde suficiente para não precisar deles. Este fenómeno tem sido objecto de investigação por parte das autoridades, que prometeram apurar responsabilidades. As investigações encontram-se em curso há vários anos e espera-se que produzam resultados assim que os investigadores consigam acesso a canetas e papel, que, a julgar pelo padrão geral, também poderão estar em ruptura de stock.
O cidadão astuto há muito aprendeu a ler as prateleiras públicas como um mapa do tesouro às avessas: onde há vazio, há negócio. Onde há negócio, há alguém que fez desaparecer o stock de forma suficientemente criativa para não deixar provas, e suficientemente regular para que todos saibam, mas ninguém consiga provar.
Permitamo-nos, por um instante, baixar o tom da ironia — não porque ela não seja merecida, mas porque há uma realidade que a ironia, por mais afiada que seja, não consegue cortar devidamente.
Existe uma mãe que andou seis quilómetros a pé com o filho às costas para chegar ao centro de saúde. Quando chegou, após duas horas de espera, ouviu que o antibiótico receitado para a infecção do filho não estava disponível. Não havia dinheiro para a farmácia privada. A mãe voltou para casa com a mesma criança que trouxe, mais a certeza de que o sistema não foi feito para ela.
Existe uma grávida que fez o pré-natal religiosamente, seguiu todas as orientações e chegou ao parto numa unidade sanitária sem luvas, sem oxitocina, sem sangue para transfusão. O que aconteceu depois é uma das muitas histórias que não chegam aos relatórios anuais com gráficos coloridos e indicadores de progresso.
Existe um idoso com hipertensão crónica que há três meses não consegue os seus medicamentos habituais. Aprendeu a gerir a tensão arterial com menos sal, mais repouso e — ironia suprema — menos preocupação. A preocupação, dizem-lhe, eleva a tensão. Não se preocupar com um sistema de saúde que falhou consigo é, ao que parece, a única prescrição disponível gratuitamente.
Moçambique tem técnicos de farmácia competentes, tem médicos dedicados, tem enfermeiros que trabalham em condições que fariam qualquer gestor europeu pedir demissão imediata. O que falta não é talento, não é formação, não é a vontade dos profissionais de saúde. Estes saem dos institutos e das faculdades de medicina com conhecimentos reais, com mãos treinadas e com uma genuína disposição para servir. O que falta é, literalmente, o material. E a vontade política de garantir que ele chegue a quem precisa, sem desvios, sem fugas, sem os milagrosos desaparecimentos que todos conhecem, mas ninguém consegue resolver.
Um profissional de saúde sem material para trabalhar é como um músico num palco sem instrumentos: pode fazer gestos, pode ler partituras, pode ter toda a técnica do mundo, mas o concerto não acontece. E o paciente que estava na plateia vai para casa sem ter ouvido nada, sem ter recebido nada, a não ser a sugestão gentil de tentar noutro sítio.
A sátira existe porque a realidade, por vezes, é demasiado dolorosa para ser encarada frontalmente — especialmente quando não há analgésicos disponíveis. O riso, dizem os sábios, é o melhor remédio. Em Moçambique, tem a vantagem adicional de ser o único remédio que não está em ruptura de stock.
Mas por detrás de cada piada sobre prateleiras vazias, há um paciente real que foi para casa sem tratamento. Há um profissional de saúde que sentiu vergonha por um sistema que não controla. Há uma criança cuja recuperação foi adiada, uma gravidez que correu mal, uma vida que poderia ter sido diferente com um comprimido de vinte meticais que o Estado não conseguiu disponibilizar.
Até lá, a erva-cidreira continua a crescer. E nós continuamos a rir, porque a alternativa é chorar — e as lágrimas, que se saiba, também não têm valor terapêutico comprovado. Pelo menos, não nas prateleiras de nenhuma farmácia.
S.G.
_____________________
Solange Guambe, nasceu em Inhambane. É formada na área técnica de Farmácia. Cresceu entre contenções e silêncios, até que os livros lhe abriram janelas, e a escrita tornou-se o seu modo mais sincero de respirar. Escreve contos e crónicas onde o silêncio, a identidade e a resistência dançam em palavras.



