Esta não é apenas uma leitura sobre as marcas da guerra ou o peso do trauma; é um exercício literário profundo e uma experiência de leitura intensa, que requer dos leitores paragens para conseguir recuperar fôlego e continuar o mergulho no romance e eu diria que, em alguns momentos, em Si mesmo. Este romance dá voz àquilo que tantas vezes escolhemos calar ou não escutar. Entre a dor, o amor e a redenção, o autor oferece-nos uma experiência da sobrevivência humana, ou se quisermos da sobrevivência, através da (re)descoberta daquilo que cada um é e guarda em Si. Isto é rapidamente compreendido quando no arranque da obra, no final da página 12, o leitor é surpreendido com a questão: Conseguiria eu alguma vez esquecer-me de mim?
O autor conseguiu de imediato despertar a minha curiosidade, já que mal terminei de ler a pergunta, perguntei-me: Porquê? Não é o esquecimento a último a forma de se morrer? É o fim da névoa; é o encontro com o verdadeiro vazio e com a ausência de tudo. Fiquei curiosa….
Este romance coloca-nos perante um cenário cru: um homem na guerra, que não é Sua, mata para sobreviver, age por ordem de outro e da circunstância sem qualquer controlo de Si ou sobre Si. Portanto, o verdadeiro campo de batalha deste livro não é o geográfico, mas sim o imenso campo do eu, do interior do eu. De facto, o regresso físico está longe de estar em sintonia com o regresso mental e emocional a Si, já que este homem traz consigo os fantasmas do conflito, encontrando num hospital psiquiátrico e num amor inesperado, o reflexo das suas próprias fraturas.
Desengane-se o leitor de que vai encontrar um narrador que conta a Sua história, exprime os seus tramas, fala das suas memórias e descreve o seu caminho de encontro com o amor de forma linear e sequencial. Antes, o autor recorre a vozes fragmentadas que habitam o doloroso trauma e respetivo o internamento psiquiátrico. São três as vozes principais que se cruzam e interatuam nesta obra, carregando cada uma delas uma dimensão profunda da dor humana. Mélio Tinga utiliza-as para mostrar que o trauma não afeta as pessoas da mesma maneira, ele é requintadamente multifacetado: enquanto um se desfaz na culpa da violência (primeira voz), outra desaba no luto de um futuro impossível (segunda voz) e um terceiro desaparece na névoa do esquecimento (terceira voz).
Constitui-se, no entanto, como um grito de esperança sobre a força do amor e do afeto. Comprova que só o afetivo é efetivo e esta nota de esperança é crucial, sobretudo num atual contexto de desumanização, marcado por políticas de guerra e de exclusão. O surgimento do amor e do afeto como as únicas ferramentas capazes de curar. Curar através do amor, do saber amar, do sentir e do permitir-se ser amado. Para mim, trata-se de uma das mensagens mais impactantes: será que na loucura contemporânea, o Homem sabe amar e permite-se ser amado? E, a este propósito, não consigo resistir em partilhar um momento, agora da segunda voz (página 133), no qual autor deu vida a este pensamento:
Amor em contra-mão
No dia que tive a certeza que o amava, abri a minha boca e disse-lhe. A seguir moveu-se ou comoveu-se, assustado, agitado, produzindo um tropel nebuloso pelo quarto – chamo quarto àquele cubo de paredes negras. Gritei que o amava para que se sentasse e sossegasse. Um animal agitava-o por dentro, andava de uma parede à outra. Murmurava, suava, parecia rezar ou insultar. A boca em movimentos rápidos e bruscos, os gestos das mãos imparáveis. Fiquei a observá-lo, sentindo nesse instante, para além do amor óbvio, a angústia. Uma angústia rija manifestava-se à medida que ele se movia imparável, à medida que via seus lábios abrirem e fecharem em palavras aprisionadas, ou que receassem saltar para a superfície epidérmica.
Os homens quando são amados transformam-se em animais buliçosos. O amor não é coisa comum, quando os encontra, como se os descobrisse em contra-mão, arranca-lhes os pulmões. Surge um desespero vulcânico, descontrolado, arrebatando tudo em torno de si, mastigando-os sem dó, sobressaltando-os, animais que se veem diante d fogo sem nunca terem ouvido falar deste. Então, a água ardente que tudo mata, é o próprio amor, o causador e o antídoto, o céu e o inferno, a subida e a descida.
Disse que te amava homem, para quê a careta de desconfiança! Porque o teu amor tinha sido o primeiro a nascer? Ou porque não sabes muito bem o que é ser amado por uma mulher? (…)
O afeto e o amor como a última linha de resistência contra a loucura, como uma âncora que permite o encontro com o outro e com isso a possibilidade de regressar a Si, evitando assim a dissolução total do Ser em prol da neutralidade do Existir.
É curioso pois a marca da “loucura” e da agitação, derivada de uma memória barulhenta, e novamente passo a citar, agora na página 167, feita de gritos, metralhadora e berros nesta cabeça todo o santo dia, marcam bem a estrutura do romance, já que este é intencionalmente fragmentado com o objetivo de mimetizar a decadência mental, os traumas de guerra e o stress pós-traumático vivido. Este enquadramento obriga o leitor a fazer o puzzle, a construir conteúdos e personagens à medida que avança na névoa do enredo.
Desta forma, o título "Névoa na sala" funciona como uma metáfora perfeita, pois não só representa a mente traumatizada pela violência militar, que se torna incapaz de processar os acontecimentos de forma linear, mas ao mesmo tempo remete o leitor para a saturação mental da vida contemporânea, onde o excesso de violência, que nos consome lenta e inconscientemente, gera uma espécie de anestesia ou pior, uma névoa geral na nossa capacidade de processar a dor, ou se quisermos de sentir empatia pelo outro. Por isso, esta obra que parte de um conflito armado específico tem ressonância global, não estamos todos, hoje, cobertos por uma névoa global que nos permite sobreviver, mas não viver? Quantas vozes, cada um de nós procura silenciar? E, num mundo em se mata com a mesma naturalidade com a qual se (sobre)vive, não estará a humanidade a matar-se em valsa lenta?
Teresa Silveira, a 27 de maio de 2026



